Viagens Na Minha Terra – Almeida Garret

O livro Viagens na minha terra de Almeida Garrett descreve o caminho entre Lisboa e Santarém enquanto são feitas divagações sobre o presente e o passado de seu país. Essas divagações são feitas pelo narrador para causar reflexões críticas sobre a história, cultura e política do país na época. A estas divagações, damos o nome de digressões. Viagens na minha terra se caracteriza pela forte presença destas digressões, que iniciam um novo plano de discussão, criando uma dinâmica na leitura. Há quem diga que até ajuda a construir o sentimento de estar dentro da viagem, de perceber e notar coisas, divagando em seus próprios pensamentos.

2ª série - Viagens na minha terra

 

Contexto Histórico

A obra de João de Almeida Garrett foi publicada em 1846 e a maior parte de sua trama se passa no território português durante uma guerra civil. Para entendermos a guerra civil, é necessário contextualizar este período.

Entre 1703 e 1836 o Tratado de Panos e Vinhos foi estabelecido por Portugal e Inglaterra, o que traria desvantagens aos portugueses e sua economia, que se endividaria com a supremacia inglesa.

Durante essa época, o Imperador Napoleão Bonaparte estava no auge de seu poder e um de seus principais objetivos imperialistas era enfraquecer sua inimiga histórica, a Inglaterra. Militarmente essa tentativa se mostrou falha com a derrota na Batalha de Trafalgar, por isso Napoleão criou o Bloqueio Continental (1806), decreto que proibia o comércio de todos os países da Europa Continental com a Inglaterra; em caso de descumprimento, tal país seria invadido por tropas francesas.

Quando este decreto é declarado, Portugal se viu encurralado, pois não podia parar de comercializar com o país que mantinha uma grande dívida, porém seu exército não seria suficiente para deter as tropas francesas. Então essa foi a oportunidade que o reinado português teve de efetuar a ideia, que já havia sido arquitetada, de transferir a Corte Portuguesa para o Brasil.

Um ano antes (1807) de tal transferência, Espanha e França, na época aliadas, selaram um acordo secreto, no qual dividiam Portugal. É neste ano que se inicia a Guerra Peninsular. Conflitos começaram a surgir entre Espanha e França e Napoleão decide atacar o território espanhol também. Em 1808, quando a Corte Portuguesa já havia se instalado no Brasil, os franceses atacaram Portugal, contudo os ingleses intercederam em favor dos portugueses com o objetivo de tentar conter a expansão do Império Francês pela Europa.

Em 1809, os franceses conquistaram a Cidade do Porto, porém esta foi recuperada pelos ingleses novamente. No ano seguinte, Napoleão invadiu novamente o território português, mas foi expulso em 1814, finalizando a Guerra Peninsular.

Em 1822, o Brasil, a principal colônia portuguesa, tornou-se independente, todavia, o poder permaneceu nas mãos dos Bragança assim como em Portugal. No território brasileiro o governante era D.Pedro I, filho de D. João VI que voltou a Portugal para governar depois da pressão de seus súditos e de uma temporada governando o Brasil.

Após 4 anos da Independência do Brasil, D. João VI faleceu e sua filha Isabel Maria de Bragança assumiu o trono. No mesmo ano, Isabel Maria de Bragança abdicou em benefício de sua sobrinha, Maria da Glória, que escreveu uma constituição que, posteriormente, foi rejeitada por Miguel I, seu tio.

Em 1826, Maria da Glória casa-se com Miguel I. No ano seguinte, seu marido é declaro herdeiro pelas Cortes portuguesas e, em 1828, torna-se rei legítimo.

A Guerra Civil iniciada logo após o acontecimento contava com dois lados: Liberais constitucionalistas e Absolutistas. Os liberais eram simpatizantes de uma monarquia constitucional com a Constituição escrita por D. Pedro. Os Absolutistas eram contrários à presença de tal conjunto de leis e seu principal representante era D. Miguel I.

Países como Reino Unido, França (a partir de 1830), Bélgica e Espanha (a partir de 1834) estavam ao lado dos Liberais. Já os Miguelistas contavam com o apoio somente da Espanha até o ano de 1833, por uma série de conflitos internos.

Miguel I buscou reconhecimento internacional, contudo foi reconhecido somente pelos Estados Unidos e pelo Vaticano, enquanto Portugal passava por uma crise financeira com a quebra do Império Português e a fuga da Corte para o Brasil.

Pedro I ao chegar em Portugal (1831) toma parte do território português, logo Miguel I estabelece sua corte em Santarém, local onde se passa o enredo do livro.

Em 1834, pelo Tratado de Londres, a Quádrupla Aliança, formada por Portugal, Inglaterra, França e Espanha, decide, por interesses políticos, contrapor-se contra as forças de Miguel I, dando a elas um fim.

Como desfecho da história, encerra-se a Batalha da Asseiceira, com vitória dos Liberais, forçando o resto do exército de D. Miguel I a se retirar.

A paz foi assinada na Convenção de Evoramonte, onde decidiu-se que a coroa deveria ser retornada à Maria da Glória, agora denominada D. Maria II e exilou seu ex-marido, D. Miguel I, para a Alemanha.

 

Enredo

O livro, escrito em primeira pessoa, narra a viagem de A. de Lisboa a Santarém.

Ao chegar em seu destino é contada a ele a história de amor de dois personagens, Joaninha e Carlos. Joaninha vive em uma casa simples na companhia de sua avó (Dona Francisca), uma senhora cega.

As duas recebem toda semana a visita do Frei Dinis, amigo de Dona Francisca, e o mesmo traz notícias de Carlos, primo de Joaninha e neto de Dona Francisca que está fora.

Carlos nunca mostrou muita simpatia por Frei Dinis, pois sabia que havia algo de estranho entre ele e sua avó, que guardavam um segredo. Por esse motivo, manteve-se separado de D. Francisca e Joaninha. Nesse período de tempo, Carlos fez parte do exército de D. Pedro, e já havia escolhido uma amada, de nome Georgina. Até que a guerra civil atinge Santarém e Carlos decide voltar à cidade, e com sua volta, ocorre o encontro de Carlos e Joaninha, os dois trocam um beijo apaixonado, o que faz Carlos entrar em conflito, já que estava comprometido com Georgina.

Durante esse período de tempo em que Santarém estava em meio a uma guerra, Carlos é ferido e fica alojado próximo à casa de Dona Francisca e Joaninha. Debilitado, Carlos descobre que, na verdade, Frei Dinis é seu pai. Georgina abandona Carlos e vira freira após saber de sua relação com Joaninha.

No final, Carlos melhora e deixa uma carta para Joaninha, contando sobre todos os seus amores e sua vida. Na carta ele esclarece a opção de não ficar com nenhum de seus amores, porque ele sabe que vai sofrer e é Frei Dinis quem relata o fim de cada personagem; Carlos desiste de suas paixões e segue carreira na política como barão, desaparecendo depois de um tempo. Joaninha, sozinha, e Dona Francisca, morrem e Georgina vai para Lisboa.

 

Joaninha

No começo da história, Garret começa negando que Joaninha fosse bela, mas isso é um truque do escritor usado para ressaltar ainda mais a beleza da personagem. Ele lhe atribui inúmeras qualidades durante o romance que aumentam o encanto de Joaninha. O mais importante traço de Joaninha é o fato de ela ter olhos verdes, que eram incomuns naquele local, naquela época e pela fisionomia que ela possuía. É possível fazer uma relação com Capitu do Dom Casmurro, porque assim como Capitu, Joaninha tinha olhos que fascinavam, alucinavam e causavam uma sensação que proporcionava prazer e dor ao mesmo tempo, ou seja, o olhar de Joaninha atrai como os olhos de ressaca de Capitu. Para provar, segue o seguinte trecho:

”Joaninha não era bela, talvez nem galante sequer no sentido popular e expressivo que a palavra tem em português, mas era o tipo da gentileza, o ideal da espiritualidade. ”

Outro trecho:

” Era um rouxinol, um dos queridos rouxinóis do vale que ali ficara de vela e companhia à sua protetora, à menina do seu nome. ”

Neste trecho, Garrett conta que Joaninha estava dormindo debaixo de uma árvore junto de um rouxinol. Esta cena traz a ideia da inocência de Joaninha e a ligação que tinha com a natureza, que era associada à pureza.

Joaninha representa Portugal da época ingênua e incapaz de sobreviver aos progressos e acontecimentos.

 

Carlos

Carlos é um homem indeciso que durante o romance se apaixona por 4 mulheres de diferentes personalidades. Vive um dilema que é contra os seus valores.

Além disso, Carlos é possivelmente uma imagem de Garrett na obra, já que possui suas características, e o autor o defende em vários trechos:

” Seria anúncio de amor? ”

Nesta parte de um trecho, é apresentado ao leitor os pensamentos de Carlos nos quais é possível perceber o seu dilema amoroso: ele quer ser fiel a Georgina, já que está noivado com a mesma, mas sente atração por sua prima, Joaninha. Os pensamentos de Carlos são rápidos, o que pode ser interpretado como se ele não analisasse com profundidade os assuntos. Ele é dominado pelos sentimentos. Isso reforça o fato de ele ser instável.

No final do romance, Carlos abandona seus ideais e se torna barão, e é dito que possivelmente se torne desonesto e agiota. Isso reforça sua instabilidade e sua degradação. No final da trama, ele pode ser comparado à Sancho Pança, já que no romance, Dom Quixote e seu escudeiro (Sancho) são comparados, respectivamente, ao idealismo e ao materialismo.

 

Georgina

Inglesa, namorada de Carlos, é a estrangeira que vai dividir o coração do jovem e gerar a dúvida de quem ele realmente ama. Representa o ideal moral da sociedade.

 

Dona Francisca

Já idosa, avó dos primos Joaninha e Carlos, era cega. Sua cegueira representa a imprudência com a qual o liberalismo foi assumido em Portugal: graças à falta de visão dos liberalistas, Portugal se viu em degradação.

 

Frei Dinis

Amigo de Dona Francisca, é sério, extremamente conservador politicamente.

Garrett não gostava do clero porque o clero havia apoiado os absolutistas no conflito entre contra os liberalistas, e no passado a Igreja Católica vivia às custas dos recursos de Portugal. Mas ele reconhecia também que a Igreja ajudava os pobres e defendia os valores espirituais, podendo ser comparado a Dom Quixote. Apesar do desgosto pelo clero, Garrett ainda prefere essa classe do que os barões e a trata com respeito numa parte do livro.

O autor rejeitava qualquer forma de governo tirânico, que reprimisse a liberdade, por isso, no fim rejeita a sociedade materialista que Portugal tinha criado.

 

Algumas Digressões

As divagações são feitas pelo narrador para causar reflexões críticas sobre a história, cultura e política do país na época

Em uma de suas primeiras digressões, encontrada no capítulo 6, Almeida Garret fala sobre a admiração que possuía por Camões, especialmente pela sua obra Os Lusíadas, na qual consegue mesclar a cultura mitológica com a cristã. Tal feito é reconhecido e aclamado por Garret, que também cita outras duas obras: A Divina Comédia, de Dante e Fausto, de Goethe. Ao citar tais obras, Garrett faz uma crítica aos autores de sua época, por considerar o contexto histórico em que vivia mais liberal do que os vividos pelos autores destes livros, Garrett indignava-se pelo fato de que os autores não eram tão destemidos quanto os que vieram antes deles.

No capítulo 24, Garret faz uma crítica à sociedade de sua época, considerada pelo mesmo “um inferno de tolices”, para ele o ser humano é moldado pela sociedade em que vive. Este ser moldado é, na verdade, um ser vaidoso e presunçoso, o Adão Social, oposto ao Adão Natural, que é um ser, criado por Deus, sendo assim, considerado perfeito.

Em Destemperos dos Originais, capítulo 38 do livro, Almeida Garret argumenta que a única parte que realmente vive em Santarém são os habitantes que conservam os antigos brios e a independência do caráter primitivo, reclamando assim da parte mais moderna da cidade.  Ele ressalta que, apesar de Lisboa possuir muitos defeitos, sente saudade de lá. Então começa a divagar sobre o fato de que tudo parece mais belo à distância. No final do capítulo critica a filosofia e a razão, dizendo que se atêm aos mínimos detalhes da vida.

No capítulo 39 o autor continua a sua digressão sobre os filósofos, destacando a diferença entre o filósofo e o poeta, afirmando que os filósofos são muito mais loucos que os poetas, uma vez que tentam explicar um mundo tão ilógico através da própria lógica. Para ele, existem coisas que são apenas sentidas e sabidas, e os poetas realmente as sentem e, portanto, as compreendem, diferentemente do filósofo.

Podem-se destacar diversas outras importantes digressões feitas ao decorrer do livro e perceber que tais reflexões podem e se relacionam muito com o mundo que temos atualmente. Tais paralelos feitos com a realidade podem nos ajudar a pensar sobre diferentes temas presentes em nosso cotidiano.

No capítulo 29, ele afirma saber de suas inúmeras “viagens mentais”, e se justifica, dizendo que é desta maneira que gosta de escrever, pois gosta de pensar e logo escrever, de sentir e sem mais delongas, transcrever seus sentimentos no papel. Sua obra, portanto, é um reflexo de sua mente. Neste mesmo capítulo, conta-nos de poetas que morreram jovens por usarem muito os sentimentos e de poetas que tiveram uma morte tardia pelo uso da imaginação.

A partir disso é possível concluir que Garret defende que os sentimentos nos consomem, enquanto a imaginação nos faz sonhar, o sentir nos destrói. Além disso, fala-nos um pouco sobre a história de Santarém, por compará-la a um livro de crônicas. Diz que os dois passaram pelo mesmo processo de destruição devido ao maltrato da sociedade.

Essas divagações fazem parte desse capítulo que faz uma síntese da posição do autor sobre as próprias digressões, estabelecendo uma ideia de como o livro é, esbanjando filosofias de vida, dentre elas as que dividem o mundo espiritualista e o mundo materialista que concretiza a ideia de imaginação e realidade.

Esta divagação representa, respectivamente, Dom Quixote e Sancho Pança, sendo o protagonista deste livro um eterno sonhador preso no mundo espiritual e o outro alheio às abstrações.

 

2ª série A – 2015

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